A trilogia Matrix que completou com Revolutions, gira em torno do tema da negação do que é percebido imediatamente em função de uma certeza sobre algo que, embora não percebido, é tomado como verdadeiro- motivo pelo qual se deve lutar por ele, mesmo que isso custe muito sofrimento e obstinação. Em termos filosóficos, isso mostra que a relação entre o percebido e o pensado tem dupla natureza: cognitiva(de conhecimento) e pratica(de ação, de vida).
No primeiro caso, o mundo da percepção, que obtemos através de nossos cinco sentidos e também inteiramente em nosso corpo, é tomado como sujeito a falhas, ilusões, equívocos de toda ordem, ao passo que podemos conceber mentalmente que, para além das aparências enganosas, há uma verdade mais substancial das coisas, embora ela resida apenas no pensamento. Esse esquema está presente em quase toda a historia da filosofia e também das ciências moderna. A primeira idéia filosófica que se tem noticia é a de tales de Mileto: tudo é água , significa que, embora aparentemente as coisas tenham formas, consistência, cores e outras propriedades bastante distintas, em sua essência todas elas possuem água como espécie de fundamento alcançável, não pelos sentidos, mas pela razão. Embora essa idéia, em termos de seu conteúdo, tenha se alterado totalmente, sua estrutura continua bastante atual. Hoje em dia, todas as teorias sobre a constituição atômica da matéria e sobre a origem do universo fazem apelo a seres, forças e eventos que estão as vezes muito alem do que podemos ver.
No segundo caso, da relação pratica, o que se pensa é tomado como muito mais valioso, necessário,
importante, do que as coisas que são vistas e percebidas em geral. Nesse caso, Aquilo que se pensa como verdade sobre o mundo demanda de nós um esforço para sua efetivação, coloca-nos motivações de vida que, ao mesmo tempo, estipulam valores para nossa própria pessoa, de acordo com o modo como nos posicionamos perante isso que é tomado como verdadeiro. Essa estrutura de pensamento é própria da religião, que se apóia fundamentalmente na fé, que é a crença em alguma coisa da qual não temos provas, mas a qual nos sentimos motivados de modo suficientemente forte.
Embora não tenha conteúdo religioso nem doutrinário, a filosofia de Platão conjuga aspectos cognitivos e pratico, formando aquilo que se convencionou chamar “metafísica”. Essa palavra, nascida de um equivoco histórico de denominar assim aquela doutrina aristotélica contida nos livros que viriam depois (meta-) dos da Física , passou a designar aquele tipo de pensamento que postula uma essência apenas pensável como raiz e substancia ultima do que é visto como contigente , variável e constituição das coisas relaciona-se ao mundo dos valores morais; trata-se, para o específicos, faz com que todo o real seja entendido através do vinculo com aquilo que se considera mais elevado, digno, nobre, eticamente valioso. Quando mais próximo desse bem absoluto, mais realidade tem a coisa.
A trilogia dos irmãos Wachovski faz uma elaboração narrativa a partir de uma percepção metafísica da realidade, deslizando progressivamente do plano cognitivo para o pratico. Não se trata de uma apropriação do conteúdo da metafísica platônica ou de qualquer outra, mas de um jogo de idéias, as vezes mais coerente, as vezes nem tanto, que estimulam a curiosidade do espectador sobre os paradoxos da metafísica.
A trilogia dos irmãos Wachovski faz uma elaboração narrativa a partir de uma percepção metafísica da realidade, deslizando progressivamente do plano cognitivo para o pratico. Não se trata de uma apropriação do conteúdo da metafísica platônica ou de qualquer outra, mas de um jogo de idéias, as vezes mais coerente, as vezes nem tanto, que estimulam a curiosidade do espectador sobre os paradoxos da metafísica.